Quarta-feira

Aos filhos de puta




1959


A todos os que se vendem e abandalham
a todos os que crêem que são os únicos
os melhores e a elite entre os demais e
se pavoneiam na sua imbecilidade estonteante
intelectuais de pacotilha e militantes da mediocridade
a todos que se aplaudem em salamaleques de familiaridades
e consanguinidades de palavras para aplauso umbilical
aos curtos de vista viscerais defensores da pequenez
provinciana travestida de francesismos e transatlânticas
vitualhas literárias a peso ou a metro milimetricamente
deglutidas entre croquetes e champanhes de imitação
pechisbeques de cabeças vazias embevecidas na vã cegueira
dos que se acreditam os únicos olhos como se em terra de cegos vivessem

ergo a minha taça
e desejo que a terra lhes seja pesada aos ossos
fragilizados de tanto curvar a cerviz
em cansaços vividos na inverdade da sua académica peralvilhice

bebo aos filhos de puta
aos inúteis
aos sem afectos
aos sem memória
aos medíocres
à matilha e à corja
bebo a todos os filhos de puta
mas bebo de pé aos filhos de puta maiores
a todos eles e aos que me enojam

Fátima Pinto Ferreira

10 comentários:

Jorge P.G disse...

Neste desfilar de grandes poemas, fica bem esta revolta da Fátima que reli com o mesmo prazer que senti aquando da primeira leitura.

Contigo, e a eles, bebo eu neste banquete dos vermes!

Jorge P.G.

António Sabão disse...

Faço minhas as tuas palavras!
Um beijo, Fátima!

Piloto Automatico disse...

Tchin-tchin.
Saúde.
F

RESSACA ® disse...

Pedindo antecipadas desculpas pela “invasão” e alguma usurpação de espaço, gostaríamos de deixar o convite para uma visita a este Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...

RAA disse...

Escrita de raça.

Jose Martins disse...

Achei esse desfilar de amargura contra a corja, interessantes, que não resistir de o publicar num dos meus blogues.

cognoscitur disse...

Vai decorrer, nos dias 14 e 15 de Novembro, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, o IV Encontro de Blogues.
mais em: http://vialatina.wordpress.com

La Pasionaria Selénia disse...

Fátima, que bela!

Solidariamente brindo, ainda que seja virtualmente!

A VOCÊ!

PortoCroft disse...

E, quando for grande, quero saber escrever assim.;)

Só de ler este seu poema, deflacionei o peito. Obrigado.

Anónimo disse...

Amei.
Super realismo !
Vc foi mt feliz,ao descrever td q se passa em cada ser digno a ter que defrontar com certa maltas! Parabéns. Bjos de Isa.