Sábado

Gestos gastos



1959



Às vezes, a meio da tarde, morro assim,
de borco, num vómito de mim.
Onde sou em ti? E onde é que em ti estou?
Mais um par de pernas, longas, abertas ou
fechadas, seios, mãos, olhos, boca, tudo
carne. E nada da novo experimentado,
além do tiro na tarde.

E morro assim, às vezes, também de manhã,
de borco, sempre num vómito de mim,
repetida, como todos os gestos gastos que gastas
já gastos noutros desgastes.

E também de noite já morri assim.

Fátima Pinto Ferreira

Sexta-feira

Caderno




1959


Recebi um caderno de folhas limpas, brancas,
e nele rabisquei um poema que dissesse do Homem que és,
que sou, que somos.

Sem crises, sem dramas, sem discussões.

Reli o rascunho e o que nele vi não és tu nem eu,
nem nós. É uma massa informe
onde vive a morte, o abandono, a fome.

Perguntar-me porque é assim dói-me uma dor
de quem se desiludiu e não acredita mais.
Nem boas acções, nem boa vontade.
Crer em quê? No ombro onde pousar a cabeça?
Na mão de que a mão precisa? Na boca que mente?

No caderno novo que recebi não vou escrever
palavras de amor, nem de raiva e, muito menos,
de tristeza. Nem de saudade.
Ela não existe do que não se conhece.

Vou escrever a história do homem cão, do homem
lobo, insidioso, vil, ignóbil, palavroso.

Vou reescrever linhas, períodos e parágrafos,
usar a sintaxe e a semântica, abusar da morfologia,
com e sem análises, vou dizer da mágoa grande e dura
de ver irmãos abandonados à sua não sorte.

Como te dizer, tu, que morres faminto, inútil, excluído?
Como te dizer, tu, que és um número esquecido, nulo,
inexpressivo numa mera estatística de homens flácidos e
colesterólicos? Como te dizer?

Mas vou dizer. E descrever o teu corpo minado, mirrado,
consumido. Vou escrever o teu corpo que não seduz, sujo,
inane e os farrapos que te cobrem, se os tiveres.

Neste meu caderno branco, limpo, vou-te dizer.
E ele, o meu caderno novo, branco e limpo, vai guardar
as palavras doridas que tu não podes dizer.

Sem crises, sem dramas, sem discussões.

Fátima Pinto Ferreira

Quarta-feira

Aos filhos de puta




1959


A todos os que se vendem e abandalham
a todos os que crêem que são os únicos
os melhores e a elite entre os demais e
se pavoneiam na sua imbecilidade estonteante
intelectuais de pacotilha e militantes da mediocridade
a todos que se aplaudem em salamaleques de familiaridades
e consanguinidades de palavras para aplauso umbilical
aos curtos de vista viscerais defensores da pequenez
provinciana travestida de francesismos e transatlânticas
vitualhas literárias a peso ou a metro milimetricamente
deglutidas entre croquetes e champanhes de imitação
pechisbeques de cabeças vazias embevecidas na vã cegueira
dos que se acreditam os únicos olhos como se em terra de cegos vivessem

ergo a minha taça
e desejo que a terra lhes seja pesada aos ossos
fragilizados de tanto curvar a cerviz
em cansaços vividos na inverdade da sua académica peralvilhice

bebo aos filhos de puta
aos inúteis
aos sem afectos
aos sem memória
aos medíocres
à matilha e à corja
bebo a todos os filhos de puta
mas bebo de pé aos filhos de puta maiores
a todos eles e aos que me enojam

Fátima Pinto Ferreira

Segunda-feira

Poética





1884 /1968


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

Domingo

Cacos e estilhaços






1939


Há tanto ano que vassouro os cacos do meu dia-a-noite.
Alguns (poucos) colei-os com tempo, suor e lágrimas.
Mas todos os outros me atolaram,
irrecuperados estilhaços de mágoas e cobardias.

Agora, estou-os juntando todos,
caco a caco, estilhaço a estilhaço.
E tudo começa a encaixar.
(Será de muito amar?)

José Carlos Mégre

Sexta-feira

Traços





1959


Há nas tuas mãos
um traço que traça um troço
de mim e me retorce, contorce
e distorce em ínfimos, milimétricos
sentires.

Esse traço das tuas mãos
que me traça é a chave precisa
para eu me traçar no traço das tuas mãos.

Fátima Pinto Ferreira

Segunda-feira

Alguien sueña











1899/1986


¿Qué habrá soñado el Tiempo hasta ahora, que es, como todos los ahoras , el ápice?
Ha soñado la espada, cuyo mejor lugar es el verso.
Ha soñado y labrado la sentencia, que puede simular la sabiduría.
Ha soñado la fe, ha soñado las atroces Cruzadas.
Ha soñado a los griegos que descubrieron el diálogo y la duda.
Ha soñado la aniquilación de Cartago por el fuego y la sal.
Ha soñado la palabra, ese torpe y rígido símbolo.
Ha soñado la dicha que tuvimos o que ahora soñamos haber tenido.
Ha soñado la primera mañana de Ur.
Ha soñado el misterioso amor de la brújula.
Ha soñado la proa del noruego y la proa del portugués.
Ha soñado la ética y las metáforas del más extraño de los hombres, el que murió una tarde en una cruz.
Ha soñado el sabor de la cicuta en la lengua de Sócrates.
Ha soñado esos dos curiosos hermanos, el eco y el espejo.
Ha soñado el libro, ese espejo que siempre nos revela otra cara.
Ha soñado el espejo en que Francisco López Merino y su imagen se vieron por última vez.
Ha soñado el espacio. Ha soñado la múscia, que puede prescindir del espacio.
Ha soñado el arte de la palabra, aún más inesplicable que el de la música, porque incluye la música.
Ha soñado una cuarta dimensión y la fauna singular que la habita.
Ha soñado el número de la arena.
Ha soñado los números transfinitos, a los que se llega contando.
Ha soñado al primero que en el trueno oyó el nombre de Thor.
Ha soñado las opuestas caras de Jano, que no se verán nunca.
Ha soñado la luna y los dos hombres que caminaron por la luna.
Ha soñado el pozo y el péndulo.
Ha soñado a Walt Whittman, que decidió ser todos los hombres, como la divinidad de Spinoza.
Ha soñado el jazmín, que no puede saber que lo sueñan.
Ha soñado las generaciones de hormigas y las generaciones de los reyes.
Ha soñado la vasta red que tejen todas las arañas del mundo.
Ha soñado el arado y el martillo, el cáncer y la rosa, las campanadas del insomnio y el ajedrez.
Ha soñado la enumeración que los tratadistas llaman caótica y que de hecho es cósmica, porque todas las cosas están unidas por vínculos secretos.
Ha soñado a mi abuela Frances Haslam en la guarnición de Junín, a un trecho de las lanzas del desierto, leyendo su Biblia y su Dickens.
Ha soñado que en las batallas los tártaros cantaban.
Ha soñado la mano de Hokusai, trazando una línea que será muy pronto una ola.
Ha soñado a Yorick, que vive para siempre en unas palabras del ilusorio Hamlet.
Ha soñado los arquetipos.
Ha soñado que a lo largo de los veranos, o en un cielo anterior a los veranos, hay una sola rosa.
Ha soñado las caras de tus muetos, que ahora son empañadas fotografías.
Ha soñado la primera mañana de Uxmal.
Ha soñado el acto de la sombra.
Ha soñado las cien puertas de Tebas.
Ha soñado los pasos del laberinto.
Ha soñado el nombre secreto de Roma, que era su verdadera muralla.
Ha soñado la vida de los espejos.
Ha soñado la vida de los espejos.
Ha soñado los signos que trazará el escriba sentado.
Ha soñado una esfera de marfil que guarda otras esferas.
Ha soñado el calidoscopio, grato a los ocios del enfermo y del niño.
Ha soñado el desierto.
Ha soñado el alba que acecha.
Ha soñado el Ganges y el Támesis, que son nombres de agua.
Ha soñado mapas que Ulises no habría comprendido.
Ha soñado a Alejandro de macedonia.
Ha soñado el muro del Paraíso, que detuvo a Alejandro.
Ha soñado el mar y la lágrima.
Ha soñado el cristal.
Ha soñado que alguien lo sueña.

Jorge Luís Borges

Sexta-feira

O amor em linguagem de computador (versão 2)






s/d


Percorro com os dedos o teclado
e acaricio nele a tua pele
que imagino morena e macia.

Envolvo com o olhar o monitor aceso
e procuro aí os teus olhos
que suponho escuros e ardentes.

Passeio com o rato no tapete
e sinto os teus lábios no meu corpo,
vagarosamente deslizando
e deixando nele o sabor que imagino em ti.

Maria Carlos Loureiro

Quinta-feira

Não me procures ali






1930/2004


Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.

Hilda Hilst

Quarta-feira

A carícia perdida






1892/1938


Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?

Alfonsina Storni

Terça-feira

Caixinha de música





s/d


impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes

em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado

encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro

caixinha de música
dentro
com bailarina que dança

Ana Mafalda Leite

Segunda-feira

Ninguém meu amor






1940/2000


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

Sebastião Alba

Domingo

Não quero cantar amores







1922


Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Agustina Bessa-Luís

Sábado

Eu sou a outra que eu sou





1959

Abomino o ser "porque sim", ser porque os outros são, pensar o que os outros pensam, fazer o que os outros querem que se faça ou esperam que assim seja ou porque é assim que deve ser... Chega!

Não quero trocar de pele nem tatuá-la com as aspirações, os medos ou os ascos dos outros. Não quero esperar quando me apetece avançar, não vou calar mais as palavras que quero dizer.

Não vou pretender ser, quero ser plenamente, aqui, ali, onde quer que seja. Conhecer céus e o os infernos todos é o meu trilho. Não me dêem piedades nem palavras ocas de sentimento. Não as quero. A dor dos outros não é a minha, a minha às vezes, quantas?, também não a é. Desconheço-me e a ninguém conheço.

Eu sou água em movimento, indiferente aos que nela se afogam, miragem e sedução, sedenta de marés convulsas desfragmentada entre luas. Terra ora fecunda ora árida, terra dolente, cálida ou gelada, alimento e sepultura. Não é o ar alheio que alimenta o meu fogo.

Eu sou a outra que eu sou, reflexos de mim num espelho côncavo ou convexo tanto faz, eu sou a outra e a outra só eu sou. Eco de mim nunca mais. Antes grito que lamento, antes o vómito à repugnância engolida. Prefiro os ventos, galernos, espertos ou ventantes, arribarei sempre ao meu porto apesar dos xaroucos. Sou nau e tenho vela, latina ou quadrada tanto faz, nau de loucos ou barca bela, sou a nau e irei ao zénite ou ao nadir ao sê-la.

Fátima Pinto Ferreira

Sexta-feira

Quis-te tanto que gostei de mim!






1893/1970


Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

Almada Negreiros

Quinta-feira

A bala fatal







1960



a bala fatal
não é aquela
que tomba o corpo
definitivamente

tão pouco é a da dor única
e derradeira

fatal é a bala
que acerta o ninho de sonhos
em cheio
e estilhaça-o em pedaços tantos
de se perder a conta
e não mais se conseguir juntá-lo
num só.

a bala que tomba o corpo
sangra só uma vez.

a outra,
dói todos os dias
pro resto da vida da gente.

Ademir Antônio Bacca

Terça-feira

O deserto inominável





1951


O deserto é um silêncio depois do mar,
É o êxtase da luz sobre o coração da areia.
Vai-se e volta-se e nada se esquece.
Tudo se oculta para depois se dar a ver
No ponto em que os ventos se cruzam
E as almas gritam no fundo dos poços.
Os cestos sobem e descem prometendo água,
Uma frescura que derrete a febre.
Não são as tâmaras que adoçam a boca,
É a beleza das mulheres dissimulando
O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.
As serpentes assobiam ou cantam
Conforme o veneno que lhes molda o sangue.
Enroscam-se sobre as pedras
como fragmentos de lua à espera da manhã.
E a sombra alonga-se nas dunas
Ondulando rente às palmeiras
Como a última cobra do medo das crianças.
Não há ruído maior que este silêncio
Que se serve com tâmaras e com chá
Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.
É no que não se nomeia que está o infinito.

José Jorge Letria

Segunda-feira

Primeiro foram os dedos






s/d


Primeiro foram os dedos
que travaram conhecimento.
Depois os olhos pousaram-me
na mão e levaram-na a percorrer
a curva da cintura. E a sua boca
procurou a minha boca
sem sobressaltos e deixou-a depois
para percorrer o meu corpo.

É assim a descoberta do poeta,
apesar de tudo se passar na sua cabeça,
dando origem a mais um poema.

Maria Carlos Loureiro

Domingo

Há dias assim...



as palavras deixaram de existir.

Supunha-as outras.

Esperava por ti, nelas.

Mas nunca virás.

Percebi.

Fátima Pinto Ferreira

Desejos de Junho






s/d



no lento triunfo da noite
estremece o coração poema
amantes sonham-se deuses
desfeitos enlaçados pelo engano
da mísera solidão devotos

no leito os seus corpos de sede
docemente guardam beijos
neles os cetins e os clarões
das tochas crepitam melodias
de alfazema místicos apagados
encurvados no gesto do abraço
êxtase perdido como o sol sem forças

beijos adivinham instintos
angústias de sono nos lábios
tépidos do novo dia

as almas jardins do corpo
unidas à natureza pelas
raízes das águas encontram
a beleza na claridade
do suor nocturno das danças
sagradas inebriantes mornas
no túmulo ébrio
onde o sangue se agita...
nascem rosas
acordam floridos na virgindade
dos seus olhos onde os anjos
servem doces lágrimas

renova-se o mundo
pedaço de tempo
que lhes sobra...

Henrique Levy

Sábado

Das utopias





1906/1994



Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mário Quintana

Sexta-feira

A noite do meu bem





1945/1982




Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a paz de criança dormindo
E o abandono das flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Eu quero o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a ternura que eu quero lhe dar.

Dolores Duran/Elis Regina

Quinta-feira

Sozinho





1942



Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
o antes, o agora e o depois
por que você me deixa tão solto?
por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho meus segredos e planos secretos
só abro pra você mais ninguém
por que você me esquece e some?
e se eu me interessar por alguém?
e se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
é claro que a gente cuida
fala que me ama
só que é da boca pra fora
ou você me engana
ou não está madura
onde está você agora?

Quando a gente gosta
é claro que a gente cuida
fala que me ama
só que é da boca pra fora
ou você me engana
ou não está maduro
onde está você agora?

Peninha/Caetano Veloso

Quarta-feira

Este seu olhar






1927/1994



Este seu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar

Doce é sonhar
É pensar que você
Gosta de mim
Como eu de você!

Mas a ilusão
Quando se desfaz
Dói no coração
De quem sonhou, sonhou demais

Ah! Se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos...

Tom Jobim

Terça-feira

Por outras palavras





1965



Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
Mais uma madrugada
Ninguém disse que o riso nos pertence
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
Mais uma gargalhada

E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim

Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguem prometeu nada
Fui eu que julguei que sabia arrancar sempre
Mais uma gargalhada

E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim

Mafalda Veiga

Domingo

Quero








1902/1987




Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

Sábado

Roteiro de Lisboa





1937



Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

Maria Teresa Horta

Sexta-feira

A tua boca adormeceu





1920


A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de oiro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de oiro
que além flutua.

Artur do Cruzeiro Seixas

Quinta-feira

I Will Kiss Thy Mouth





1942


Do fundo da cisterna
a tua voz eleva-se e nenhuma
masmorra abafa este ardor
por ela aceso, no derradeiro véu,
a minha pele.? Nem as proféticas
maldições, nem o teu repúdio,
nem a luxúria do tetrarca
me impedem de cumprir
o mandamento primeiro
da paixão: a colheita
da tua face.

Inês Lourenço

Quarta-feira

Rascunho




1959


Escrevo na alma um rascunho
de traços indeléveis do teu toque.
Mas tantos, tantos,
que trago a alma riscada
e ela sofre.

Não se devia riscar a alma.
Antes com a alma riscar traços
desenhados na tua pele,
tatuá-la e ter-te,
para sempre,
e dar-te
a minha alma de papel.

Fátima Pinto Ferreira

Terça-feira

O Verão estala por todos os poros





1919/1982


O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico do peito das mulheres
tão acerado
que rasga o céu de calor
com um golpe preciso
de lanceta.

João José Cochofel

Segunda-feira

Quente, o teu coração quente





1919/2004


Quente, o teu coração quente
pulsa no lusco-fusco.
Palpita em toda a casa
deserta que nos vê.
Galga as sacadas altas,
corre nas avenidas.
É o silêncio do amor
que abre as veias na tarde...

Quente, o teu coração quente,
é uma estrela no escuro
que a pele das tuas mãos
prolonga em minha pele...
quem te amou e é já morto
renova a primavera.

Oh! doce comunhão
de desejo e infinito,
de saudades e de céu,
de paraíso e grito!

Água clara e tremente
a boca, a sede, a fonte.
Flor de sangue à corrente
o teu coração quente.

Natércia Freire

Domingo

Amor silêncio amargo





1922/1994


Amor silêncio amargo a roçar-me a morte
grito partido do vidro sobre o peito
ilha deserta no meio das capitais do norte
grilhetas ajustadas no rio em que me deito.

Distância cumulada remanso de uma espera
ponte da aventura do dois à unidade
amor brilho raiando a chave do desejo
minuto adormecido ao pé da eternidade.

Amor tempo suspenso, ó lânguido receio,
no pranto do meu canto és a presença forte
estame estremecido dissimulado anseio
amor milagre gesto incandescente porte.

Amor olhos perdidos a riscar desenhos
em largo movimento o espaço circular
amor segundo breve, lanceta, tempo eterno
no rápido castigo da lua a gotejar.

Salette Tavares

Sábado

Pouco tenho para alinhavar







1949


Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.

Eduardo Pitta

Sexta-feira

Semântica Electrónica





1901-1980



Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

Vitorino Nemésio

Quinta-feira

A silabar que o poema é estulto





1939/1989


A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda;

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luiza Neto Jorge

Terça-feira

Vens de noite no sonho





1962


Vens de noite no sonho
sem pés
entre páginas
de gasta paciência
quando a música findou
e teu sorriso se desfez
como um grão de pólen.

Vens no veneno oculto
de meus dias
no silêncio
dos meus ossos
devagar
arrastando em queda
o nosso mundo.

Vens no espectro
da angústia
na escrita
inquieta
destes versos
no luto maternal
que me devolve a ti.

A escuridão desce então
sobre o meu corpo
quando o rosto da morte
adormece na almofada.

Ana Marques Gastão

Segunda-feira

Amor Amado





s/d



Assim como os poentes
São rubros e as rosas,
Tão vivo é o meu amor por ti.
Com essa força atravesso
Todas as tempestades
E descubro em cada momento
A fonte da alegria.
No silêncio repito
O teu nome como um bálsamo
E sei que tu o meu repetes
como um apelo.
E o apelo não é vão
Pois com ele me dás as estradas
E os atalhos para chegar a ti.
Ao teu encontro vou
Com as rosas de Maio
Com as cerejas de Junho
Com as uvas de Setembro
E cada mês me dá para te levar
a sua novidade
Pois o amor faz novas todas as coisas.
Quando te não vejo vejo-te em todo o lado
E oiço-te em todas as vozes
Tu que és a única voz.
Em ti me refaço e me transformo
E fluo para ti como um grande rio
Na certeza de ti, que és o meu (a)mar.

Maria Teresa Dias Furtado

Domingo

Coisas de luz antigas





s/d




Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.
Deu-me uma vez na mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
Falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.
Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:
um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)

Ana Luísa Amaral

Sábado

Quando nós vamos ambos





1842/1891



Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos de um fôlego as colinas
Do rocio da noite inda orvalhadas;

Ou vendo o mar, das ermas cumeadas,
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longe no horizonte amontoadas;

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão, e empalideces...

O vento e o mar murmuram orações
E a poesia das cousas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

Antero de Quental

Sexta-feira

Rosa precipitada




1929



Quando tu vens ao meu encontro
sorrindo

Rosa precipitada
antigo Mar Vermelho
meu coração
abre-se

Ana Hatherly

Quinta-feira

Totalmente Herética






1932



Totalmente Herética.
Absolutamente hermeticamente.
És a corrente eléctrica
que subverte a métrica.

Vejo uma mulher distante amante
lutando contra o tempo desviante
uma mulher de células diamante
e oráculos védicos bramante...

uma rubra submérsica corrente
entregue aos ritos áuricos da mente
que me procura e eu busco demente
entre sonoras sombras manualmente!

uma mulher de súbitos desvios
de onde nascem tumultuosos rios
e se perfilam beijos desvarios
em sexos sanguíneos delírios...!...

uma mulher de hoje e de infinitos
saberes de que se fazem mitos.

Ernesto de Mello e Castro

Quarta-feira

Mais uma noite, amor






1960



Mais uma noite, amor. Ao recordar-te
retomo os fins do mundo, a cinza, os dias
manchados de outras lágrimas. Sabias
como eu a cor das sombras, essa arte

que nos engana agora e se reparte
por esquinas e cafés. Já não me guias
os muitos passos vãos, as fantasias
da minha falsa vida. Vou deixar-te

fugindo-me. Na chuva, sem ninguém,
apenas alguns vultos, o que vem
«e dói não sei porquê» -este deserto

onde te vejo, imagem outra vez,
até de madrugada. O que me fez
sentir o muito longe aqui tão perto?

Fernando Pinto do Amaral

Terça-feira

Como sabes




1959


Sabes que te quero como quem saboreia as uvas
maduras de Setembro, os dedos sujos de mosto quente
e o cheiro dos figos e das sardinheiras inebriam-me os sentidos.

Sabes que te quero como quem mergulha na água
cristalina de uma praia sonhada em delírios adolescentes;
como quem navega no teu corpo, pelas tuas pernas quentes
escorrega e desliza num amor feito carinho e ternura.

Sabes que te quero como quem mastiga devagar e saboreia
um manjar divino, num apetite desvairado de desertos
e palmeiras na miragem do oásis dos teus braços ao redor
dos meus impulsos. Como dizer que te amo, apesar de tudo?
De altos e baixos desenho o imaginário do teu silêncio,
socalcos de desejos num declive de coxas e sexo ansiado.

Como dizer que te amo, quando lês nos meus olhos a neve
e o sol da alma em cinzas que desvendo na nudez que te ofereço?
Como dizer que te amo, quando vês as minhas mãos lisas
que correm o teu corpo em busca da paz que não vivo?
Como dizer que te amo, se sabes que te amo pela minha boca
entreaberta num beijo prolongado, dorido, cheio, demorado?

Amo-te. Como sabes.

Fátima Pinto Ferreira

Segunda-feira

Expressão





1946



Dentro da curva inesperada
dos meus braços,
transbordam os gestos
numa espiral imperceptível.

Nas pontas dos meus dedos
se alonga a neblina
que deriva do inverso da loucura
quando prendo nos dentes
a superstição da lua
ou esboço no riso
a cumplicidade dos espelhos
timidamente transparentes
para dizer que só pelo silêncio
se vence o labirinto das palavras
e se mede a solidão.

Graça Pires

Domingo

Domingo irei para as hortas






1888/1935


Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo.
Nunca domingo.
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Súbtil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

Sábado

O dia da criação





1913/1980



Macho e fêmea os criou.
Génese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado


III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinicius de Moraes

Sexta-feira

Canção




1897/1959


Nem sequer podia
Ouvir falar no teu nome.
E se fixava o teu vulto,
Irritava-me, sofria
Por não poder insultar-te...
Até que um dia,
- Foi no inverno, anoitecia.
Choviscava; - uma chuvinha
Impertinente e gelada
Como sorriso de ironia
Numa boca desejada.

Já não sei o que disseste;
Nem me lembro do que disse...

A chuva continuava.
Atravessámos um jardim.
E à luz fosca
Dum candeeiro,
Segredaste ao meu ouvido:
Quero entregar-te o meu corpo.
E eu acrescentei: - Pois sim.

A chuva tornou-se densa.
Eu ia todo encharcado.
Por fim, chegámos; entrei...

Um marinheiro descia
Ageitando a camisola
E compondo os caracóis.
Era uma casa vulgar,
Aonde o amor
- Oculto a todos os sóis,
Se vendia a troco da "real mola".

Arrependi-me. Blasfemei...
Mas quando abandonei os teus braços
Senti que tinha mais alma!

E nunca mais te encontrei.

António Botto

Segunda-feira

No divino impudor da mocidade





1894/1930



No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Florbela Espanca

Sábado

Floriram por engano as rosas bravas





1867/1926


Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha

Quinta-feira

O Universo






O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão

Quarta-feira

Procurei um poema, para ti filha







Procurei um poema, para ti filha,
vasculhei tudo, tudo, na memória
- esforcei-me e desisti.

Nenhum
diz o teu sorriso
ou as tuas mãos no meu pescoço,
o teu olhar, a tua doçura.

Não há poema que te sirva,
que te diga
mesmo quando fazes birra e choramingas.
Não existem palavras
que falem do amor
e das cerejas ainda flor
ou o carinho que contigo conheci.

Não há poema que te desenhe,
minha filha pequenina,
papoila, menina ou borboleta,
andorinha e feiticeira.

Fátima Pinto Ferreira

Terça-feira

Que dizer da borboleta






1938


Que dizer da borboleta
que pousa de ramo em ramo? Talvez ela
não saiba
que meus olhos a vêem
voar no vento. Talvez saiba.
Também o meu afecto
vai no vento e voa e pousa
nos ramos frágeis
da minha amada.

Casimiro de Brito

Domingo

Naturalidade



1932/1997


Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável ... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

Rui Knopfli

Sábado

Se houvesse degraus na terra...





1930



Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

Sexta-feira

Tela


Pinto uma tela, sorrio
porque imagino os teus lábios
e o teu sorriso. Nos meus.
Procuro-te nos tons da minha
tela, procuro sem cessar,
e não te encontro.
A que vens aos meus pincéis
se logo foges sem te tocar?

Fátima Pinto Ferreira, Homem

Quinta-feira

Mal sem remédio






1943



Morre-se de medo, morre-se de tédio,
mas do que se morre mais
é de falta de amor, mal sem remédio
que nos faz desiguais.

Já morremos mil vezes, já morremos
de mil mortes, nem todas naturais,
e sempre renascemos
para amar um pouco mais.

Até que um dia a solidão,
daninha mãe das decisões finais,
nos proíba o coração
de bater mais.

Torquato da Luz

Quarta-feira

Fingir que está tudo bem





1974


Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luis Peixoto

Terça-feira

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa

Segunda-feira

Calai




1946/1975

Calai
Montes
Vales e fontes
Regatos e ribeiros
Pedras dos caminhos
E ervas do chão,
Calai

Calai
Pássaros do ar
E ondas do mar
Ventos que sopram
Nas praias que sobram
De terras de ninguém,
Calai

Calai
Canas e bambus
Árvores e "ai-rús"
Palmeiras e capim
Na verdura sem fim
Do pequeno Timor,
Calai

Calai
Calai-vos e calemo-nos
POR UM MINUTO
É tempo de silêncio
No silêncio do tempo
Ao tempo de vida
Dos que perderam a vida
Pela Pátria
Pela Nação
Pelo Povo
Pela Nossa
Libertação
Calai - um minuto de silêncio...

Francisco Borja da Costa

Que importa a melodia





1925/1964


Que importa a melodia,
se acaso aos outros dou,
com pávida alegria,
o pouco que me sou?

Que importa ao que me sabe
estar só no meu caminho,
se dentro de mim cabe
a glória de ir sozinho?

Que importa a vã ternura
das horas magoadas,
se ao meu redor perdura
o eco das passadas?

Que importa a solidão
e o não saber onde ir,
se tudo, ao coração,
nos fala de partir?

Daniel Filipe

Canto as mãos que foram escravas




s/d

Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas Américas

Canto cantos tristes
do meu país
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar

Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças

Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detém
a marcha do meu País.

Julião Soares Sousa

Aqui, na areia





1926


Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrente
sobre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições:
HUMANIDADE.

Alda do Espírito Santo

Domingo

O Choro de África





1922/1979



O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em histórias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no círculo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de máquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.

Agostinho Neto

Sábado

Poema do Futuro Cidadão





1922/2003


in Chigubo


Vim de qualquer parte
de uma Nação que ainda não existe,
Vim e estou aqui!

Nã0 nasci apenas eu
nem tu nem nenhum outro...
mas Irmão...

Mas
tenho amor para dar às mãos-cheias.
Amor do que sou
e nada mais.

E
tenho no coração
gritos que não são meus somente
porque venho de um País que ainda não existe.

Ah! Tenho meu Amor a todos para dar
do que sou.
Eu!
Homem qualquer
cidadão de uma Nação que ainda não existe.

José Craveirinha

Sexta-feira

O amor não é uma saga cruel






1942


o amor não é uma saga cruel:
vejo-a cuidar das plantas no jardim,
brincam as filhas com lápis e papel
e eu escrevo sossegado. é bom assim.

na relva, um melro a saltitar, vilão
pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,
ou de mosca azarada: passa lesto
entre duas roseiras: já é verão.

mas o melro demanda outro quintal
e do poema, sem jeito e sem disfarce,
sai do bico amarelo em diagonal

desajeitada: esvoaça sem maneiras
como um pingo de tinta a escapar-se,
de verde prateado, as oliveiras.

Vasco Graça Moura

Quinta-feira

Ouves, meu amor




1934


Ouves, meu amor, a água que brotou
no côncavo da pedra que a tua mão marcou?

Ouves, meu amor, o passo do veado
correndo no caminho que só por nós pisado?

Entendes, meu amor, a voz que fala agora
do tempo que esperou, da lenta e só demora?

Já era onde nós somos a nossa paz presente.
Só nós entrámos nela e agora é que se sente.

Alumiam-se as noites, Deméter aparece,
tu sentas-te a meu lado e o trigo reverdece.

Pedro Tamen

Quarta-feira

Um horror

Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
...

Olavo Bilac

Segunda-feira

Bendito seja o mesmo sol de outras terras





1888/1935


Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível,
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral ...

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro

Sábado

Quando eu não te tinha





1888/1935


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro

Quinta-feira

São Judas Iscariotes, Fátima Pinto Ferreira

Edições Cosmos, 2006

"É um romance cujos temas principais são a tolerância e o conhecimento raciocinado/procura da sabedoria como caminho para o Bem Supremo ou para a Cidadania completa; entre outros assuntos abordados pela narradora, numa viagem de sete dias, durante a semana que precede a Páscoa de 2005, que faz em busca da sua paz interior, há a reflexão acerca de Judas Iscariotes - terá sido traidor ou um cúmplice necessário ao desencadear de um momento histórico, em que o Homem foi colocado perante escolher a liberdade de expressão, a tolerância e a inteligência ou optar pela cupidez, pela ignorância e pela falsidade? Comparando a história de Hirão e o seu silêncio ao silêncio e à incompreensão a que Judas foi remetido, usando a Numerologia e o Tarot, a narradora e o seu interlocutor, o Homem da Vela Latina, vão chegar a uma explicação plausível e baseada na história e na arte paleocristã, analisando o papel mundano e político do Vaticano em disparidade com os ensinamentos de Cristo e com o pensamento gnóstico.

A narrativa desenrola-se em Lisboa, Minho e Trás-os-Montes, num percurso do litoral para o interior, como metáfora do pensamento superficial (mesmo que violento como as ondas de inverno) que se desloca a um pensamento cada vez mais profundo, intemporal e pacificador, enquanto a narradora caminha, atravessando as serranias, através de estradas sinuosas, até Rio d´Onor, onde na intemporalidade da raia, metaforizada no espaço temporal da diferença horária entre Portugal e Espanha, e, em terra de ninguém, se encontra trazendo à luz uma verdade silenciada…

O aborto, a violência doméstica, o ambiente, a desertificação do interior, a hipocrisia dos costumes, a língua e a literatura portuguesas, a gastronomia, a mediocridade da vida moderna afastada do raciocínio e da meditação são mais alguns dos temas do romance.

De leitura fácil mas profundo e denso, numa linguagem depurada porém marcada por alguns dos autores predilectos da autora, com momentos sensuais e poéticos, reflecte o olhar de uma mulher madura e a sua reflexão da realidade actual, numa simbologia esotérica para que o nome de cada capítulo nos remete, sem por isso deixar de ser frontal na desconstrução que faz do catolicismo e do pensamento ocidental. Polémico, arrasador, construtivo, politicamente incorrecto mas obsessivamente humanístico, S. Judas Iscariotes é um romance diferente, forte e desabrido."

A apresentação do livro foi feita pelo Dr. Ramon de la Feria e pelo Prof. Dr. Mário Avelar, no Grémio Lusitano/Museu Maçónico, em Lisboa.
[Do texto que acompanhou o convite para o lançamento do livro]

Segunda-feira

Algum dia um novo Papa







1906/1994


Algum dia um novo Papa
anunciará altivo
que Deus é raiz quadrada
de um quantum negativo

e o Deus que tanto procuro
em que atingido me afundo
é aquele ser-não-ser
do que acontece no mundo

da matéria mais que densa
é que é divertido ser
ali se nada acontece
tudo pode acontecer.

Agostinho da Silva

Sábado

Receita para fazer um Herói






1922/1959




Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira

Sexta-feira

Paráfrase







1972



este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos constrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta

Pedro Mexia

Quinta-feira

Nunca são as coisas mais simples





1949


Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

Quarta-feira

Génesis






1919/1978




De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!

Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.

Jorge de Sena

Terça-feira

Por muito tempo achei que a ausência é falta





1902/1987


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Segunda-feira

A praia foi lugar de muita espera





1915/1986


A praia foi lugar de muita espera.
A maré molhou-te
De improvisos. Chegou a noite
E abriu-te as portas
Ao sol poente. A noite
Para os poetas.

Sei que não existes
Só porque o desejo.
O teu rosto
Corroído
Pelo fogo. Se nos encontram,
Rejuvenesces
E eu clamo: amo-te!

Paisagem
Cercada de mar profundo.
Montanhas, uma baía
Que a muitos se parece
Na idade, que não esquece
A poeira que há nas almas,
Nem as areias que as invadem.

Passaram dias sem que a vida ousasse
Sujar-me de atritos
E a vida foi um gesto de água
Intenso de tráfego
Na ilha. Finalmente, os dias...

Ruy Cinatti

Domingo

Não, não encontro o retrato





1923/2005


Não, não encontro o retrato.
Estavas de perfil, a luz de cinza
caía-te dos braços,
da casa próxima o fumo

subia devagar os últimos degraus
do outono, um cachorro
saltava no terreiro, não tardaria
a escurecer.

Estavas de perfil, a mão acompanhando
no regaço a rosa que te dei.
Deixa-a ficar e ser,
a mão, rosa também.

Eugénio de Andrade

Sábado

O amor é uma mentira




1959


O amor é uma mentira, um fingimento.
É sexo de momento, coisa de ocasião. Chega
mesmo a estar em saldo, a ser uma promoção.
Sejam dois, três ou milhentos só
se paga um com emolumento.
Depois é vaidade, é colecção de designers
com e sem consagração.
É fingir circos e festas, noites de criação,
despir roupas, simular céus.
É amargura, desilusão, é cobardia
de enfrentar a solidão.
É dizer sim para não dizer não.
O amor é uma mentira, um fingimento.
É sexo de momento, coisa de ocasião. Chega!

Fátima Pinto Ferreira

Sexta-feira

Quando não te posso contemplar








1904/1973



Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.

Pablo Neruda

Quarta-feira

Para ti, meu amor, é cada sonho







1921/1981


Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e de sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos de Oliveira

Terça-feira

Quando a suprema dor muito me aperta









1524?/1580



Quando a suprema dor muito me aperta,
Se digo que desejo esquecimento,
É força que se faz ao pensamento,
De que a vontade livre desconcerta.

Assim, de erro tão grave me desperta
A luz do bem regido entendimento,
Que mostra ser engano ou fingimento
Dizer que em tal descanso mais se acerta.

Porque essa própria imagem, que na mente
Me representa o bem de que careço,
Faz-mo de um certo modo ser presente.

Ditosa é, logo, a pena que padeço,
Pois que da causa dela em mim se sente
Um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.

Luis de Camões

Segunda-feira

Contigo aprendi coisas tão simples








1933/1978


Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste nos súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente

Ruy Belo

Domingo

Precisão








1920/1977




O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fracção de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exactidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exactidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector

Sábado

Cântico Negro





1901/1969



"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio

Sexta-feira

Não posso adiar o amor




1924


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa

Quinta-feira

Há homens










1898/1956


Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém, há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis.

Bertold Brecht

Quarta-feira

Para atravessar contigo o deserto do mundo











1919/2004



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner

Terça-feira

Ars Poetica







1957/1995





O mar, no seu lugar pôr um relâmpago.

Luis Miguel Nava

Segunda-feira

Outono do amor que folhas moves






1941


Outono do amor que folhas moves
na direcção dos corpos separados
e molhas desses prantos ignorados
de quem da primavera conheceu o

movimento das aves
e desse movimento estas esperas
agora só conhece já e ouve
a própria descida com as folhas

a voz própria cansada
quando a vida
e a voz lhas está a dor tirando

Outono do amor outono de aves
e de vozes caladas e de folhas
molhadas de temor e surdo pranto

Gastão Cruz

Sábado

80º aniversário do nascimento de Augusto Abelaira






1926/2003



80º aniversário do nascimento de Augusto Abelaira

Porque ainda há quem o cite:

"(...) Pelo caminho, vou reparando como são impessoais e distantes do mundo real estas vias de acesso mais rápido entre os pontos geográficos. Cómodas, sem dúvida, mas despersonalizadas. Lembro-me de um texto de Augusto Abelaira, Anfitrião Outra Vez, que é cada vez mais actual! A auto-estrada aproxima-nos rapidamente do nosso destino, todavia afasta-nos do mesmo modo veloz das terras por que passamos ao largo. Sabemos que existem, mas não sabemos como são. Centrados em nós e nos nossos objectivos, em velocidade, será que vivemos? Ou somos um mero exercício de sobrevivência? (...)"

in São Judas Iscariotes, de Fátima Pinto Ferreira, pg. 14

Sexta-feira

Perguntavas-me





1943


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

Manuel António Pina

Quinta-feira

Que espanto em meu olhar insone







1923/1993


Que espanto em meu olhar insone
com um mistério por resolver.
Charcos onde o luar consome
lírios e sapos que no luar
vêem o reflexo duma fome.

Terra dos meus olhos
lavrada com medo.
Onde uma sombra irrevelada
passeia a escuridão dos meus abismos
transfigurada.

Natália Correia

Quarta-feira

Poema







1923



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

Terça-feira

Diz-me o teu nome





1959


Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

Maria do Rosário Pedreira

Segunda-feira

Devia morrer-se de outra maneira




1900/1984



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão súbtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

Sábado

Pus o meu sonho num navio





1901/1964



Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

Sexta-feira

Esse rio




1959


Entre as sinuosidades desse rio
que corre desaustinado, galgando margens de socalcos
esculpidos, cavados por mãos calejadas, renasce
um nome de terra fecunda, profunda.

Desconjunturas que sulcam esquecidas
idades, imagens perdidas de um rio onde te amei
ao sol escaldante de Agosto.
O Douro e o teu corpo confundem-se nos aromas
das imagens que rumino daquele amor amado.

Em S. Leonardo de Galafura.

Fátima Pinto Ferreira

Quinta-feira

Tentei fugir da mancha mais escura








1927/1996


Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David Mourão-Ferreira

Quarta-feira

Há palavras que nos beijam





1924/1986


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O´Neill

Terça-feira

"Meu Amigo










1884/1949



Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde só muito fraco chega o rumor da grande cidade. De que te hei-de falar? Da Vida? Pois seja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom - tolice - não venhas. Aqui, para triunfar, é preciso ser mau. Sê mau, cínico, hipócrita e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do BEM e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga.

Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar.

Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas.

Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém. (...)

Albino Forjaz de Sampaio